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Relato de Juliana Juchum

Novo Hamburgo 17 – 5 – 1955


Em respeito ao desejo e pedido das gerações mais novas da família Juchum, escrevo hoje o que eu sei de meus antepassados.

Eu nasci no dia 26 de março de 1871, filha de Frederico Juchum e sua esposa Elisabeth von Mühlen, nascida em Dois Irmãos, município de São Leopoldo. Meu pai morreu no dia 30 de março de 1928 e a minha mãe no dia 30 de março de 1919. Meu irmão mais velho Andreas, morava em Conventos e morreu em fevreiro de 1934. O meu irmão Carlo morreu no ano de 1946 e o meu irmão Friedrich no ano de 1948. Meu pai Friedrich Juchum nasceu em Oberstein, na região do antigo principado Birnfeld no dia 24 de fevereiro de 1841 e veio ao Brasil no ano de 1860, um jovem de 19 anos.

Os avós Friedrich Juchum e Luise Ritter vieram em 1862 também para o Brasil e moravam em Conventos onde morreram depois de muita atividade.

Meu avô nasceu no dia 14 de outubro de 1809 e morreu em 31 de maio de 1891. A vovó nasceu no dia 10 de dezembro de 1822 e morreu no dia 2 de outubro de 1902.

Meus avós por parte de mãe eram Peter von Mühlen e Margaretha von Helfenstein. Meu avô nasceu em 3 de novembro de 1813 em Quernach em Rheinbeiern e veio com o seu pai e um irmão no ano de 1834, para o Brasil, onde ele comprou uma propriedade em (Teewald) Santa Maria do Herval. Mais tarde ele comprou outra propriedade em Dois Irmãos, onde ele morreu no dia 19 de março de 1898.

Minha avó no seu primeiro casamento era casada com Johann Adam Berlitz, o mesmo morreu numa afronta contra o menino diabo na Revolução de 1834. Uma filhinha de 2 meses era o fruto desta união.

Minha avó nasceu no dia 2 de dezembro de 1814 na Alemanha, no Vale Lichtenberg. No dia 10 de novembro de 1827 a família deixou a terra natal em Helfenstein para fundar uma nova terra no Brasil. A viagem em uma caravela foi vagarosa mas segura, até que chegaram no canal onde o navio quebrou e quis afundar. Mas não era para ser, pois, um navio inglês veio em seu socorro e salvou todos os passageiros mas o resto, tudo foi perdido, somente o corpo lhes foi salvo. O navio inglês os trouxe infelizes para a cidade de Falmouth onde eles foram carinhosamente recebidos pela população inglesa e puderam esperar até que surgisse a oportunidade de seguirem em frente. Os que conseguiram serviço, assumiram para ganharem algum dinheiro. Minha avó tinha 13 anos e conseguiu serviço de auxiliar, com duas senhoras idosas, que a tratavam com muito carinho, e foi onde ela aprendeu a língua inglesa para falar bem. Pouco antes de sua morte ela me contou isto tudo, na época eu tinha 13 anos. Que pena que ela teve que morrer tão cedo, pois poderíamos ter aprendido muito mais dela.

Meu bisavô Heinrich von Helfenstein tinha 5 filhos quando saiu da sua terra natal. 3 eram moças e 2 rapazes. Destes a minha avó era a mais velha e tinha 13 anos. O mais novo, o pequeno Heinrich, tinha apenas 4 meses. A viagem de navio era lenta e ruim, com isto a água para beber ficou escassa e os passageiros, especialmente as crianças sofreram grandes necessidades. As conseqüências desta falta foram que 4 crianças morreram e foram enterradas no cemitério da cidade de Falmouth. Das crianças que mamavam, só o pequeno Heinrich Helfenstein sobreviveu. Em compensação ele teve que deixar sua jovem vida aqui no Brasil, na Serra, onde ele foi com uma companhia de construção. Um caboclo esfaqueou-o após uma curta discussão por ofensa e ele morreu na hora. Ele tinha apenas 17 anos.

Meu bisavô Heinrich von Helfenstein comprou um pedaço de terra em Morro Reuter quando ele chegou aqui em Dois Irmãos no ano de 1829 (a viagem durou quase 2 anos). Naquela época, de tempos em tempos, vinham bugres do mato para assaltar os moradores. Por isto sempre se tinha que ter muito cuidado. Quando o bisavô ia para o serviço, ele sempre levava a sua Gretchen junto para ficar de guarda e para buscar água para beber. Um dia ele mandou a criança ir buscar água e já esperava impaciente. Nisto ele viu que um silvícola vinha correndo atrás dela para pegá-la, mas ele também correu ao encontro da criança e com a arma mirou o silvícola. Quando o mesmo viu a espingarda mirada em sua direção ele deu um berro de susto, se virou e desapareceu no mato. Isto foi a única vez que um silvícola se fez ver por lá. Meu bisavô ficou morando na sua terra e morreu como um homem relativamente novo e foi enterrado na sua propriedade onde na época ficava o cemitério para os evangélicos. Hoje flores ainda florescem nas sepulturas dos que lá repousam. Pessoas estranhas que lá moram conservam as sepulturas pelo que Deus certamente os recompensará.

O que eu escrevi agora fica para as gerações mais novas como lembrança dos nossos antepassados.

Juliana Juchum.