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Primeira carta de Philipp Elicker

Do Wiesental, antes de Campo Bom, na Colônia Alemã de São Leopoldo, não longe da cidade de Porto Alegre, na Província do Rio Grande do Sul, no Império brasileiro, na parte mundial sul da América, escrita no sábado, 18 de março, do ano da graça de Nosso Senhor Jesus de 1843.

Ao meu, até a morte, caríssimo irmão Johann Georg, junto à querida senhora cunhada e filhos, assim como também a todos e a cada um dos meus queridos parentes consangüíneos, aos amigos e conhecidos em Niederlinxweiler e à terra natal da pátria alemã.

Eu, Philipp Elicker, com minha querida mulher e filhos, saudamos vocês do fundo do coração e pensaremos carinhosamente em vocês por muito tempo, se Deus Onipresente quiser, e desejamos para vocês todos, as mais ricas bênçãos de Deus Todo-misericordioso, para este tempo e para a eternidade, onde nós esperamos nos ver novamente, se não nos vermos mais nesse mundo.

Quisera que, desta terra sempre verde, apesar da enorme distância que nos separa, possa esta minha carta, pela condução e direção de Deus, chegar diretamente às tuas mãos. Queira permitir o Todo-bondoso Deus que eu possa novamente ver nesta terra e abraçar a ti, meu querido irmão, a cunhada, os vossos filhos, os meus parentes próximos e os amigos. Querida Deus que esta carta vos encontre bem, com disposição, saúde e bem-estar, como eu hoje me encontro. Graças ao Altíssimo, desde que estou aqui, não estive doente nem uma vez.

Eu penso, ainda com coração partido, na hora da minha despedida do povoado alemão, quando os sogros, cunhados e cunhadas, nem mesmo um adeus vieram em dizer. Todavia, lembro as palavras de José do Egito: "Vós intentastes fazer mal a mim, porém Deus intentou fazer bem".

Pela carta escrita em 8 de agosto de 1842 por Johann Georg Fuchs ao seu irmão Johann Nicolaus Fuchs, a qual chegou aqui em 11 de dezembro de 1842, tu queres, caro irmão, saber algo de minha mulher e filhos, além de outras coisas dignas de nota. Eu já teria escrito antes para ti, mas por ter mandado comunicar, pelas cartas dos colonos e amigos alemães daqui, minha situação e negócios e como eu sempre recebi notícias de vocês, pensei que poderia ficar dispensado de escrever. Eu também te convidei e te mandei vir para o casamento, mas o portador, um português, para quem é difícil pronunciar uma palavra em alemão, transmitiu mal a mensagem.

Eu te comunico, portanto, meu caro irmão, que minha primeira mulher já está há muito no mundo melhor e eterno. Minha mulher, Anna Elisabeth Scherer morreu em alto mar. Nossa filha menor morreu antes. Nossa filha mais velha, com dois anos de idade, eu trouxe para esta Província, mas também esta o querido Deus levou para a mais bela morada celeste durante a viagem para essa colônia.

Durante quatro anos fiquei solteiro e depois disso casei novamente com a viúva Sibilla, coburguesa, nascida Eckel, natural de Steinheim, no distrito de Nidda do Grão-Ducado de Hessen, junto ao Reno, a qual tinha três filhas. Uma filha casada morreu. A outra filha casada tem um filho e sua filha mais nova tem 14 anos e está conosco na casa. Minha mulher tem sua própria colônia ou terra. Se bem que em feliz consórcio, ainda não tivemos filhos. Nós vivemos abençoados por Deus, em harmonia e dedicação ao trabalho, não nos falta nada, e o que me falta eu posso adquirir.

Trabalho na minha profissão de tecedor de linho. Mandei fazer um tear que me custou, sem os pertences necessários, trinta táleres. Ganho com ele, de um dia para outro, meio táler. Com o dinheiro que ganhei, já poderia ter mandado fazer outros três teares. Até agora me encomendaram só quatro peças de tecido de linho, pois aqui tudo é feito de algodão, muito mais fácil de tecer e também mais apropriado do que o linho, pois absorve o suor e cai melhor sobre o corpo. Já tive, uma vez, em casa, dezoito a vinte rolos de fio de algodão, para serem tecidos. Normalmente trabalho de São João até o natal. Além disso, trabalho (na lavoura) para produzir o sustento de que preciso. Tenho agora nove cabeças de gado, entre elas, dois bois. Durante os distúrbios da revolução, consegui a muita pena salvar meu gado, deixando-o, durante dois anos, na propriedade do Böbian, na floresta, há três horas daqui. Depois pude buscá-lo de novo. Se não o tivesse levado para ali, hoje não teria mais uma só cabeça.

Como já faz dois anos que estamos livres das visitas dos revolucionários, esperamos, desejamos e acreditamos ter, daqui para diante, sossego. O comércio, a indústria e a navegação estão florescendo, e os alemães podem vender os seus produtos sem dificuldade e a bons preços, ganhando bastante dinheiro.

Como a navegação vai até o Rio de Janeiro e de lá sem embaraços para a Europa, e o mesmo, de volta para Porto Alegre, assim os meus caros parentes, amigos e conhecidos, que, segundo o meu desejo e o deles, queiram me visitar aqui, podem vir sem o menor medo até a cidade de Porto Alegre.

Novidade digna de nota, nos últimos tempos, não sei de nenhuma. Um raro fenômeno natural ocorreu em céu aberto às três horas da tarde do dia 27 de julho de 1841, quando uma metralha de tiros de canhão ou de fuzis foi ouvida por todos, grandes e pequenos, num raio de 8 horas de distância.

Ainda comunico para todos, que gente alemã que veio conosco para esta terra e que também veio em diversos outros navios da Europa queria nos assaltar durante a noite do último natal. Isso, por aqueles que tu, meu caro irmão, conheces, pois moravam lá em cima perto da tua oficina. Mas, graças a Deus, que a preparação desse intento se tornou conhecida e foi revelada publicamente 11 horas antes, senão teria acontecido outra desgraça. Mas Deus, o Senhor, por esta vez, passou um traço sobre o fato.

De resto, as frutas todas este ano foram muito boas e abundantes. Este ano vou colher no mínimo 8 moios de arroz. O último verão foi muito quente, só que nós estamos acostumados ao calor. No ano passado – 1842 – houve aqui muitos casos de rubéola entre adultos e crianças.

Quero terminar com as minhas comunicações. Até uma outra vez, pois espero de ti, caro irmão, uma carta, especialmente em resposta a esta, a qual faço questão de receber tão logo quanto possível.

No que fiz respeito a Jakob Albrecht, ele está bem e com saúde, com sua mãe, sua mulher e seus filhos, e se encontra a prosperar. Mas ele não sabe se sua madrinha ainda está viva. Os que viajaram comigo lá de casa, amigos e compatriotas da minha localidade, estão bem e com saúde até hoje e vão indo sempre muito bem, como exceção de Katharina Fuchs que está adoentada há três meses, quase sempre fica de cama, mal e mal consegue ainda caminhar.

Meu caro irmão, Peter Elicker, desejo que estejas recuperado de tua doença e que esta carta te encontre em Mainzweiler com tanta saúde como eu tenho hoje. Também tua cara mulher, que ainda não conheço, de coração saúdo mil vezes.

Saúdo cordialmente e sempre até a morte a ti, meu caríssimo irmão Johann Georg, a ti caro irmão Peter, a mulher de meu falecido irmão Jakob Elicker e seus filhos, a mulher e filhos do falecido Andreas. Eu saúdo os caros filhos do meu irmão Valentin Elicker, falecido em Deus, e o primo Bettinger e sua mulher e filhos, e a comadre Anna Eva, mulher do juiz, e também seus filhos. Cordiais saudações à irmã do pai, à mulher de Leonhard Noe, que se chama Dorothea, e a sua família inteira. Cordiais saudações a sogra Maria Scherer e aos seus oito filhos, se ainda estiverem vivos. Muitas saudações ao meu bom e conhecido compadre, o senhor jurado Georg Jakob Gabler, a sua esposa e à sogra, aos irmãos e às irmãs; o Reverendíssimo Sr. Pastor e ao tão estimado professor paroquial; saudações respeitáveis aos senhores Pastor Jakob Schmoll e professor Jakob Lind.

Saudações e bênçãos até a extrema velhice. O Senhor seja vosso guarda para sempre. Vosso irmão,

Philipp Elicker.