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Anton Kieling e Elisabeth Lange

Em 1827, nos primórdios da imigração alemã no Brasil, dentre tantos que aportaram no sul do país, chega um casal com uma história peculiar. Era Anton Kieling e Elisabeth Lange, ele militar que serviu a Napoleão Bonaparte e por isso foi perseguido pela Prússia e ela, uma nobre que abdicou de sua história para vir ao Brasil com seu amor.

Dentre tantos que escreveram a história de Anton e seus descendentes, estão Celestino Kieling, Flávio Scholles, Ricardo Iserhard Ries e o Padre Guido Both. Hoje, quase duzentos anos após a chegada de Kieling, é mais difícil montar o histórico do patriarca e de seus descendentes mais próximos. As fontes orais já faleceram há décadas, muitos registros se perderam e histórias pitorescas como a de Anton e sua esposa são contadas de geração em geração, perdendo, às vezes, a precisão quanto aos fatos e detalhes.

O Padre Guido Both foi o primeiro a se aventurar nessa história, já em 1946, quando genealogias e históricos familiares praticamente ainda eram pouco estudados no sul do Brasil. Celestino e Flávio são descendentes diretos e Ricardo Ries pesquisador que resgatou dados genealógicos interessantes. Diva Lammel Heck de Novo Hamburgo, também forneceu detalhes importantes para esse resgate histórico.

Começo a história de Anton Kieling, segundo o histórico já publicado, organizado pelo historiador Carlos Henrique Hunsche:

Conta a tradição oral que Antônio Kieling seria natural da Alsácia-Lorena (sic). Homem de estatura elevada e bonito, teria integrado o corpo da guarda de Napoleão e tomado parte na Campanha da Rússia em 1812. Em Dois Irmãos, onde se estabeleceu, envergava ainda, nas grandes festas, a sua antiga farda de oficial, com botões impecavelmente polidos. E contam que o mesmo sabre que o acompanhara nas guerras napoleônicas "vai perder a ponta e a glória numa cômica caçada de gambás em Dois Irmãos".

Segundo o Padre Guido; Anton, da guarda do General Napoleão Bonaparte, participou da campanha na Rússia em 1812. Como sabemos, o inverno castigou o exército de Napoleão, e nos é relatado que Anton juntamente com 5 companheiros, consegue sobreviver (provavelmente os cinco da guarda pessoal, pois, o número de soldados que volta para a França é bem maior).

Moscou foi incendiada e abandonada. A intensa nevasca do inverno europeu os castigou e o grupo sobreviveu com um pouco de vinho líquido de barris congelados e defender-se de lobos famintos que também sondavam a área. O exército de Napoleão foi desfeito e o oficial Anton vai trabalhar na cavalaria de um general, seu futuro sogro, promovido ou agraciado com o título de Barão. Entendemos que o general Lange, Lanc, ou Alan (sic) recebeu reconhecimento de Napoleão. O oficial Anton enamora-se da filha deste general (Elisabeth Lang).

Sobre Kieling e a filha do oficial, Mário Albino Both escreve: "Na corte francesa estourara; do século o maior escândalo; pois o alemão, muito vândalo; com a nobreza se metera." A moça Elisabeth, jovem de 16 a 17 anos, é ameaçada de perder a herança por namorar Anton, que era apenas um oficial. Sobre Elisabeth, Flávio Scholles destaca: "Contavam que ela tinha vindo para o Brasil com uma dama de companhia. Falava vários idiomas, e também diziam que havia uma fortuna incalculável à espera dos descendentes".

E Guido Both prossegue: Elisabeth prefere perder a herança. É deserdada e os dois vão para as terras dos Kieling. Nesta época, Napoleão retira-se para a ilha de Elba, em 1814 no Mar Mediterrâneo. Nasce o primeiro filho do casal, Jakob em 1815. É nessa época que a Prússia, após o tratado de Viena, que refez os limites dos países, perseguiu todos aqueles que lutaram a favor de Bonaparte. Anton e seu irmão pensam em emigrar para a América. Como primeira opção, surge o México, porém a instabilidade política os faz mudar de planos. Ele veio para o Brasil e o irmão foi para os Estados Unidos.

Anton veio para o Brasil com a esposa Elisabeth e seus quatro filhos nascidos na Europa. Cruzaram o Atlântico provavelmente na galera dinamarquesa Creole que partiu de Bremen em 21.0.1826 e chegou ao Rio de Janeiro em 11.11.1826. A família viajou para Porto Alegre em um dos costeiros que deixaram o Rio de Janeiro em fins de dezembro de 1826, princípios de janeiro de 1827, transportando cerca de 400 imigrantes destinados à Colônia Alemã de São Leopoldo. A família chegou em São Leopoldo a 4 de fevereiro de 1827.

Kieling ganhou terras em Dois Irmãos; Ali se instalou com a família e, por ser um dos primeiros moradores, ganhou o lote número 15. Uma história contada por Guido Both, muito interessante, porém pouco detalhada o que dificulta um pouco a compreensão de algumas partes é a seguinte: Napoleão estava complicando com o clero. O autor da guarda, aos gritos e espancando com a espada um padre, o ia empurrando em direção à prisão, mas, bem baixinho lhe segredava: "senhor por aqui que lhe mostro uma saída". Mais tarde em Dois Irmãos (ou Walachei), quando Anton estava partindo para a capela ou a igreja, elevava sua voz forte e rouca quando apareceu o padre: "acho que conheço esta voz!". E era o mesmo padre.

Anton teve ao todo nove filhos. A Dora Lammel Heck conta que todas as roupas de Elisabeth continham o brasão de sua família (na época os brasões representavam apenas as famílias de nobres), e que eram colocadas cuidadosamente por ela em um baú onde as netas gostavam de mexer. Já Scholles destaca que diziam que a Elisabeth colocava roupa para coarar sempre à noite, dobrando as pontas para que ninguém da vizinhança visse a coroa ali impressa.

Anton faleceu primeiro, em 10 de janeiro de 1856, sendo enterrado no antigo cemitério católico. Em sua lápide encontra-se a inscrição: "Hier ruhet Anton Kieling Geb. In Weinheim bei Worms 15.dez.1784 gest. 10. Jan. 1856 O – Ihr meine theuren Lieben; dir Ihr na meinen Grabe weint; was wollt ihn euch noch betrueben; weil ihr des versichert seid; das ich bin mit Gott vereint; wie sehn uns wieder in Ewigkeit. Tradução: Aqui descansa Antônio Kieling nascido em Worms a 15.12.1784, falecido a 10.01.1856. Ó vós, meus caros amados que chorais no meu túmulo; porque ainda vos entristeceis; pois vós tendes certeza; que eu estou unido com Deus; nós nos veremos na eternidade.

Elisabeth faleceu nove anos depois de hidropsia a 13.5.1865. Segundo o registro do padre: "sepultada na sexta-feira da Paixão, depois do meio-dia, por mim, solenemente, no cemitério católico na picada Dois Irmãos. Ass. Augusto Lipinski, vigário".

Há um fato pitoresco descrito, décadas mais tarde pelo padre Both: "O Oscar (Roehe, descendente de Elisabeth e pesquisador sobre os Kieling) queria briga com o padre de Dois Irmãos. Foi desumada a condessa (sic) e o padre ficou com o brasão dourado que estava sobre seu peito".