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Memórias de Henrique Fauth

Eu, Henrique Fauth, nasci a 29 de julho de 1823 em Kreuznach, Koblenz, Reino da Prússia. A 29 de agosto de 1825, meus pais emigraram para o Brasil, com quatro filhos, contando eu apenas dois anos. Permaneceram um ano no Rio de Janeiro por causa de uma doença do pai, a qual durou oito meses. Em 1826, chegamos à Feitoria Velha e recebemos uma colônia no Kaiserwald, a uma hora de São Leopoldo. Quando eu contava quatro anos, meu pai morreu afogado no Rio dos Sinos, perto de São Leopoldo. Minha mãe casou em segundas núpcias com Adão Becker, que a nós, crianças, maltratava. Com oito anos, tive de trabalhar na roça por apenas dois vinténs, ou seja, 40 réis. Aos dez anos, ganhava seis vinténs, ou 120 réis. Com doze anos, fui obrigado a prestar serviço militar nas fileiras dos farrapos. Foi exatamente no dia em que o Menino Diabo foi ferido e aprisionado perto de Dois Irmãos. Servi como soldado durante cinco anos. Nunca recebemos soldo nem vestimenta. Durante dois anos sitiamos Porto Alegre. Como tínhamos pouca munição, tivemos de recuar para Cima da Serra e Vacaria. No ano de 1837, travamos uma grande batalha perto de Rio Pardo e vencemos os imperiais. Mais tarde, aprendi o ofício de sapateiro e casei em 25 de março de 1842 com Elisabeth Schönardie, quando já tínhamos uma criança. Em 1845, a 13 de maio, fui para São João das Palmas, na Campanha, onde fiquei um ano para ganhar dinheiro, voltando depois ao Kaiserwald, onde morávamos. Depois comprei uma colônia em Mundo Novo para onde me mudei em 6 de outubro de 1856, com seis filhos, duas meninas e quatro rapazes. Em Mundo Novo, nasceram mais sete rapazes. Desses treze filhos, vivem ainda hoje, doze. O mais velho, Henrique, perdeu a perna direita na Guerra do Paraguai. Trabalhei como sapateiro e mantive ainda um pequeno negócio. Em 13 de março de 1880, morreu minha esposa. Continuei a venda, como viúvo, ainda cinco anos. Fiz aprender um ofício a cada um dos meus dez filhos. Em 1883 naturalizei-me brasileiro. Fui então, nomeado vereador da Câmara Municipal de Taquara. Passei por muitas dificuldades na minha vida. Quando casado, tive muitos dias tristes, mais tristes ainda como viúvo, pois o mundo, para mim, havia acabado. Tenho hoje, 1899, cinqüenta netos e três bisnetos. Descrevi algo da minha vida em um livro.

Memórias


Meu pai, de profissão carpinteiro, chamava-se Felipe Henrique Fauth e residia no Reino da Prússia. Era casado com Ana, nascida Bretz, de Kreuznach, onde meus pais moravam e onde nasci em 29 de junho de 1823. Pouco depois do meu nascimento, meus pais resolveram emigrar para o Brasil a fim de encontrar uma nova pátria. Em 19 de agosto de 1825, partimos de Kreutznach para Hamburgo e de lá para o Brasil. No Rio de Janeiro, desembarcamos e lá ficamos um ano inteiro porque meu pai ficou doente durante oito meses, o que consumiu a maior parte do dinheiro que havia trazido, pois minha mãe era de família de posses. Gastou-se muito com médicos, alojamento e alimentos. A vida no Rio de Janeiro, já em si era cara, tornou-se mais cara pela doença e pela necessidade de alimentar cinco crianças.

Depois de restabelecido o pai, viajamos, em 1826, ao longo da costa brasileira, para o Sul, até a Província do Rio Grande do Sul, onde não fazia muito tempo, haviam sido fundadas colônias alemãs perto de São Leopoldo. São Leopoldo consistia, então, de uma choupana de palha que pertencia a um alemão chamado Rasch. Nos primeiros seis meses moramos na Feitoria Velha, então ganhamos uma colônia no assim chamado Kaiserwald, cujo nome vem da falecida mãe do Imperador do Brasil, que ali queria construir um castelo.

Meu pai começou a plantação e, quando havia terminado, foi a São Leopoldo buscar subsídios. Na volta, teve de atravessar o rio dos Sinos em uma canoa. Havia mais passageiros, alguns com cavalos que, segurados pelas rédeas, nadavam atrás da canoa. De repente, virou a canoa e todos caíram na água. Meu pai se afogou. O barqueiro era o velho Coelho, sogro de Adão Hoeffel.

Vocês podem imaginar, queridos filhos, que duro golpe do destino foi, para todos nós, a inesperada morte de meu pai. Minha mãe ficou sozinha numa terra estranha, desconhecendo o trabalho da roça, com quatro crianças menores que quase nada podiam ajudar: meu irmão mais velho, Lourenço, tinha 12 anos, minha irmã mais velha, Cristina, era uma menina de dez anos, minha segunda irmã, Margarida, tinha oito e eu, apenas quatro anos de idade. Nenhum falava o idioma do país e ninguém tinha noção do trabalho na roça. Minha mãe, desesperada, chorou amargas lágrimas.

Pouco depois, apareceu em nossa casa um senhor chamado Adão Becker, que se dizia solteiro. Mais tarde descobrimos que estava casado na Europa, com mulher e duas crianças. O mesmo pediu a mão de minha mãe e casou com ela pouco depois. Esse Becker, que era um vadio inveterado e que possuía todos os vícios do mundo, tratou nossa mãe e nós, filhos, como escravos. Sofremos muito com esse sujeito grosseiro, levamos muitas surras e pouca comida. Eu, apesar de contar com apenas cinco anos de idade, tinha de ir à roça para trabalhar só pela comida, que consistia de muita água e nenhum pão. Não sei como suportamos tal vida sem morrer de fome.

Nesse ínterim, começou a revolução. Nela tive um pequeno ganho extra, pois, dos cavalos que não eram alimentados pelos farrapos e que por isso morriam e ficavam abandonados eu tirava a pele e a vendia para um curtidor, perto de Hamburgo Velho, por duas patacas. Economizei dessa maneira seis a oito táleres de cobre, com os quais comprei uma camisa e calça de algodão grosso, que, na época se chamava pano de negro, porque somente os negros o usavam. Pouco depois, meu padrasto foi convocado como soldado, pelos republicanos. Ele furungou tanto nas gengivas, até fazê-las sangrar, tossia violentamente, cuspindo sangue, a fim de se livrar do serviço militar. Prometeu mandar a mim em seu lugar. Assim, eu, uma criança de 12 anos, tive de fazer a revolução no lugar daquele ordinário.

Comecei a servir no dia em que o famigerado Menino Diabo (Antônio Joaquim da Silva) foi ferido e preso na Picada Baum (Dois Irmãos) em Terezen Loch. Tornei-me soldado dos republicanos, depreciativamente chamados farrapos. Armas eu não tinha, meu padrasto não deu sua pistola, e os farrapos não tinham dinheiro para fornecer armas. Por isso, eu cuidava dos cavalos. Poncho também não tinha. Depois servi ao capitão Lupa, aquele que mais tarde se tornaria Mucker.

Comecei a pensar se deveria ficar com os farrapos ou me esconder no mato. Decidi seguir adiante com eles, porque pensei que poderia encontrar minha irmã Christina, que estava casada com o tenente Titze (J.J.F. Tiedge) pois, como era costume, as mulheres dos oficiais farrapos acompanhavam seus maridos. Marchamos toda a noite, parando apenas um pouco na localidade chamada Pataca e Meio. De manhã, às 8 horas, encontrei minha irmã, que, com suas duas filhas, Maria e Filipina, viajavam numa carreta portuguesa. Como nos alegramos! Mas choramos, nós e as crianças por esse momento tão triste. Enquanto minha irmã ficou numa casa, perto de Itacolomi, nós marchamos até a Aldeia dos Anjos (Gravataí), onde acampamos. No dia seguinte, distribuíam cachaça e fumo de duas polegadas de comprimento. Isso foi tudo que recebi dos farrapos durante os cinco anos que servi a eles. Pelas marchas forçadas e a vida miserável que levávamos, ficamos muito depauperados. Nossa roupa estava rasgada e pendia em farrapos do corpo. O que tínhamos, sim, eram piolhos, do tamanho de grãos de cevadinha.

Depois dessa batalha (em Rio Pardo), tão favorável aos republicanos, foi-nos permitido voltar para casa. Mas ainda precisamos de quatro semanas para chegar de Rio Pardo a São Leopoldo, onde fomos desligados. Esperávamos ter, então, a paz, mas, depois de apenas um mês, veio nova ordem para que nos apresentássemos.

Tornei-me ordenança do tenente Carlos Wilk em São Leopoldo, junto a Adão Hoeffel. Lá havia um velho fabricante de tamancos de nome Miguel Kern. Nas minhas horas vagas, eu ia ter com ele e conversávamos horas inteiras, e eu observava o seu trabalho. Pensei então que, depois de terminado o serviço militar, poderia aprender essa profissão. Pouco tempo depois, meu padrasto mudou-se para Santa Maria da Boca do Monte para ter um ganho lá, pois não queria trabalhar na roça. Foi necessário pegar com vontade, porque plantando não havia quase nada. Dinheiro também não havia porque os farrapos não pagavam soldo. Iniciei então a fabricação de cepos de madeira para tamancos, que eu vendia, apesar de mal feitos, porquanto me faltavam as ferramentas necessárias.

Eu tinha, na época, quatorze anos de idade e comecei a pensar em mim e na minha vida. Não sabia escrever nem sequer os números para marcar os cepos. Durante a Revolução, ninguém pensava em manter ou freqüentar a escola. Veio-me ao pensamento um homem chamado Henrique Schmidt, de Hamburgo Velho, que mantinha uma escola. Era ao mesmo tempo pastor protestante e pregava o evangelho aos domingos. Fui procurá-lo e perguntei se me aceitaria como aluno. O pastor Schmidt foi muito amável e me aceitou com prazer. Do meu falecido pai existia ainda uma lousa, uma pena de duas polegadas e um livro velho de ABC. Assim munido, freqüentei a escola durante dois meses.

Enquanto eu estava na escola, era minha mãe quem carregava do mato para casa os toros de madeira de que eu precisava para fazer os cepos para os tamancos. De tarde, eu fazia os cepos e, à noite, pregava um ou dois pares. Eu já sabia escrever os números e, com certa dificuldade, soletrava.

Eu deveria ser confirmado, mas soube-se que todos deveriam voltar as armas. Felizmente, as tropas estavam só de passagem, não se podendo demorar, porque teria sido cortada a sua retirada. Ao cabo de um mês pude voltar às armas e à fabricação de tamancos. Com o que ganhava, pude comprar algumas roupas; possuía duas camisas de algodão, uma de morim, um par de sapatos e um chapéu de bambu. Este, eu o comprei pelo valor de cinco pares de tamancos. Logo após acertei o fornecimento de 100 pares de tamancos com João Pedro Schmitt de Hamburgo Velho. O couro para essa encomenda, ele me vendeu ao preço de 16 táleres. Com o dinheiro ganho, comprei um poncho de 11 táleres.

Meu padrasto, que estivera um ano ausente, voltou pouco antes da minha confirmação. Depois das festividades, pensei que seria bom continuar mais um tempo na escola e pedi licença a ele para freqüentar a escola do professor Hans, que ensinava aos nossos vizinhos Wasen. Eu pagaria a mensalidade, que era de uma pataca, do meu bolso, já que tinha 9 patacas, podendo, assim, assistir as aulas durante nove meses. Mas o padrasto, em vez de me dar a licença, tomou-me o dinheiro, declarando que eu era velho demais para ir à escola, que deveria fazer cepos para tamancos. Contava exatamente quinze anos. Desgostoso com tal atitude, resolvi seguir o exemplo de meus irmãos e abandonar a casa paterna. Quatro meses depois, eu de fato fui para casa de um vizinho e fazia lá meus tamancos.

Passados alguns meses, voltei a ser novamente soldado; primeiro, com o capitão Normark, depois com o tenente Carlos Wilk e, finalmente, com o major Corrêa. Este último foi um canalha, enquanto que Carlos Wilk era um sujeito bom. O major Corrêa foi o mesmo que, mais tarde, mandou assassinar o meu cunhado Tietze. Em virtude de um requerimento que meu cunhado enviara ao general Bento Gonçalves, Corrêa havia recebido a ordem de retirar-se da Colônia Alemã por estar arruinando-a completamente. Por um traidor, Corrêa soube que meu cunhado fora o autor do requerimento e concentrou todo o ódio nele. A morte de Tietze foi um assunto resolvido. O crime foi cometido nas cercanias de São Leopoldo, perto da casa Mohr. Assim, meu cunhado, que queria zelar pelo bem da comunidade, teve de pagar com a morte.

Eu estava com 17 anos e não tinha aprendido coisa alguma e, enquanto eu estava de guarda, pensava sobre minha vida, pois tinha tempo suficiente para pensar no meu futuro. Ler, fazer contas e escrever eu sabia muito pouco. Pensei: não vou escolher muito, vou ficar sapateiro, pois posso ganhar meu pão na sombra, porquanto me lembrava que por vinténs por dia tinha que limpar a roça onde o milho estava amarelo de tanto inço. Em 4 de agosto de 1840 procurei um mestre. Depois fui aprender com outro homem de nome Wilhelm Hartz, com quem terminei meu aprendizado.

No dia 25 de março de 1842 casei com Elisabeth, filha de Johann Schoenardie e de sua mulher Maria Elisabeth, nascida Zollinger. Fomos casados pelo pastor Heinrich Schmidt, o mesmo que me confirmou.

A revolução não havia terminado ainda e a paz não havia sido feita, porém já havia comércio na colônia, pois que os republicanos se haviam retirado para campanha. Eu trabalhava como sapateiro, fazia cepos e pregava tamancos, mas como o povo era muito pobre e andava descalço, eu fazia péssimos negócios.

Em 27 de julho de 1845 cheguei em São João das Palmas, onde morava meu irmão. Comecei a trabalhar, os preços não eram ruins pois, por um par de botas de meio cano, de vacum e veado, pagavam entre 10 a 12 mil réis. Botinas não estavam na moda e custavam 3 mil réis o par, para mulheres, 2 mil e para crianças, 500 réis, tamancos para homens 1 mil réis. Assim, eu podia ter feito bons negócios se a mania de vender fiado não estivesse em moda e se não existissem tantos velhacos. E mais, precisava-se ter cuidado com muitos alemães que perambulavam na campanha, pois esses eram os piores. Esgotou-se o couro porque eu não pudera levar muito, lá o couro era muito raro. Precisei então ir para casa e me suprir novamente. Cheguei, fiz minhas compras e no dia 25 de outubro despedi-me novamente da minha mulher e dos filhos e viajei para a campanha. Em 10 de novembro cheguei outra vez em São João das Palmas e recomecei a trabalhar. Meu irmão, que não tinha terra própria, morava nas terras de um estancieiro que conhecia muito bem a situação e que me ofereceu dois quartos junto ao moinho e também boa alimentação em sua casa. Aceitei a oferta com prazer. Quando o couro terminou, pensei em voltar para casa, Do planto de comprar vacas leiteiras eu desisti e comprei, de diversos senhores, 15 éguas, 5 cavalos e um garanhão. Para começar, em casa, a criação de cavalos, comprei parte de meu irmão da colônia paterna por 100 táleres de prata. Quando quis reunir as éguas, não tive sucesso porque elas não deixavam pegar assim no mais. Só consegui pegar 9 éguas e 3 cavalos. Quis cobrar os meus haveres, mas só consegui em parte. Ao menos eu tinha aprendido português e em contato com pessoas ficado mais inteligente, mais cuidadoso e mais experiente. Na volta para casa, novamente passei por maus pedaços. No dia 22 de novembro de 1846, cheguei finalmente em casa com 4 éguas e 3 cavalos.

Aceitei um aprendiz de nome Heinrich Fleck e aprontamos uma partida de sapatos, botas de cano curto e longo e chinelos. Com isto, nós seguimos dia 23 de junho de 1847 para a campanha para mascatear. Depois de Taquari, comecei novamente a vender fiado, mas também vendia a dinheiro e trocava cavalos e éguas por calçados. Atravessamos Formigueiro, Boqueirão, São João, Caçapava, São Gabriel de onde fomos para São Sepé. Lá eu vendi fiado o resto dos sapatos. Um alemão que lá morava, prometeu-me cobrar os haveres e também aceitar cavalos em pagamento das dívidas. Ele me logrou de uma maneira escandalosa. Voltei para casa, onde cheguei em 24 de novembro de 1847.

Trabalhava como sapateiro, fazia tamancos e trabalhava na roça. Todavia, essa última atividade eu não podia mais suportar, por isso comprei em sociedade com Georg Wallauer, de um tal Philipp Gruen, 24 selas lavradas a 19 mil réis cada uma. Saímos em viagem dia 28 de janeiro de 1848 para Cima da Serra para lá vendê-las. Tomamos o caminho por Taquara do Mundo Novo com quatro cavalos carregados. Como havia pouco dinheiro na Serra, fomos obrigados a trocar as selas por cavalos. Viajamos até Vacaria e Vila Velha e de lá voltamos. Nessa viagem nós padecemos muito. Os serranos naquela época eram muito pobres e só podiam oferecer leite, queijo ou milho cozido como alimentação. Carne não havia. Fiquei feliz quando, após uma viagem de sete semanas, chegamos novamente em casa com nossos cavalos. Nesse ínterim haviam chegado muitos cavalos da campanha, tendo baixado muito o preço dos mesmos. Assim fui obrigado a vender os cavalos com prejuízo para poder pagar as selas que havia comprado a crédito. A soma dessa venda não dava para pagar a dívida, e as éguas que havia trazido no ano anterior haviam morrido. Eu só tinha azar, de todos os lados, e com minhas viagens e dificuldades não ganhava quase nada.

Tomei a resolução de não mais sair de casa e comuniquei à minha mulher. “Queira Deus que assim seja”, disse ela, eu lhe respondi “sim, sim, tu verás! Eu agora vou fazer uma plantação de mandioca”. Mas também nisso tive azar porque quando estava pronto para fazer farinha, o preço do saco caiu de 4 mil réis para 800 réis. Com o gado eu também tinha azar. Se comprava três animais, num ano era certo que dois morriam.

Logo após estourou a guerra contra Rosas, e o governo mandou fazer na colônia os fornecimentos para os militares, como lanças arreios, selas, sapatos e botas. “Agora”, eu disse para minha mulher, “vai ficar melhor” e de fato ficou. Trabalhava na sapataria e ela ajudava. Ganhávamos dois mil réis ou mais por dia. Quando tinha juntado certa quantia, comprava uma vaca leiteira, que morria logo em seguida por causa do campo ruim que tinha. Assim eu só alimentava os urubus.

Pela vida regular que havia levado na Revolução e posteriormente, arruinei de tal maneira minha saúde que minha mulher temia que morresse em breve. Se tal acontecesse, ela estaria em dificuldades para se manter no campo ruim que tinha. Comprei então na Picada Hartz uma picada de mato por 300 mil réis e preparei uma roça. Mas como não poderia ganhar nada com minha profissão, declarei para minha mulher que não iria construir coisa alguma para morar.

Tinha ficado doente de tanto derrubar mato e não podia me sustentar com a plantação. Como gostaria de ir para algum lugar onde eu tivesse terra boa e pudesse trabalhar na sapataria! Lembrei-me de Mundo Novo. Justamente nessa época Peter Bauer, de Fortaleza do Mundo Novo, queria vender sua colônia. Comprei-a em 1854 por 1.100 mil réis. Vendi as minhas terras no Kaiserwald e na Picada Hartz. Mudamos em 6 de outubro de 1856 para Mundo Novo e levamos Peter Augustin como peão. Tínhamos naquela ocasião seis filhos, quatro rapazes e duas meninas. Um rapaz havia morrido. O mais velho tinha 11 anos e a menina menor tinha 16 meses.

A terra era boa. Primeiro nos instalamos numa choupana que havia na colônia e começamos a derrubada da mata. Cercamos um potreiro e queimamos a área onde plantamos 4 quartas de milho. Depois construímos uma cozinha e um depósito para o milho. Esse trabalho foi realizado em três meses por mim, minha esposa e o peão. No primeiro ano já comecei a vender milho. Em janeiro de 1857 recomecei a fabricação de cepos de tamancos, tamancos e sapatos. Vendia as mercadorias em casa, pois que estava localizada na estrada principal que ia de Taquara para Cima da Serra, Vacaria, Campos Novos até Lages. Logo tomei um aprendiz trabalhador e fazíamos um bom trabalho e muito procurado. Minha mulher e filhos não falavam português. Como a casa era ruim, em 1859 começamos a construir uma nova, que ficou pronta em 1860. Para a inauguração, por ocasião de Pentecostes, contratei música. Os custos da obra importaram em 1.500 mil réis. Ao lado da sapataria e da fábrica de tamancos, eu comecei uma pequena venda onde vestia tudo que se tinha para vender.

Meu filho mais velho, Heinrich, não tinha vontade de ser sapateiro e mandei-o para Taquara a fim de aprender a profissão de ferreiro com Korndoerffer. O segundo filho, Georg, e o terceiro, Johann, aprenderam a profissão de sapateiro comigo. Em Fortaleza, nasceram mais sete filhos homens.

De Gottfried Eberts, comprei uma quarta parte da colônia que ficava localizada em frente as minhas terras por 475 mil réis. Posteriormente, comprei uma colônia de F.W. Pohlmann, contígua as minhas terras, por 1.200 mil réis e, um ano mais tarde, mais uma colônia, contígua a minha, por 1.200 mil réis. Nesse ínterim estourou a guerra com o Paraguai, e o meu filho mais velho foi convocado. Voltou com vida mas aleijado, tendo perdido a perna direita.

Continuei a trabalhar com afinco na minha profissão, porém só com um aprendiz. Ensinei-a ainda a dois de meus filhos, Friedrich e Philipp, assim como a diversos aprendizes estranhos Com o vender fiado em Cima da Serra, Vacaria e Lages perdi muito dinheiro e decidi que, mesmo ganhando menos, venderia só a dinheiro. Emprestei dinheiro a juros de 6% e também tive grande prejuízo. A situação não aconselhava aumentar o negócio e procurei aplicar minhas economias em compra de terras para que meus filhos tivessem uma propriedade com que pudessem se manter. Fiz diversas viagens de recreio com minha mulher para Cima da Serra, São Leopoldo, Porto Alegre e São João do Montenegro.

Minha esposa faleceu em 12 de outubro de 1880. Perdi minha cara e fiel companheira de vida, que sempre esteve a meu lado e que sempre repartiu comigo alegrias e tristezas, dias difíceis e bons. Quando deito um olhar retrospectivo sobre minha vida, eu penso que cumpri plenamente o meu dever para com meus filhos. Nunca poupei trabalhos e esforço para chegar a ser um verdadeiro pai. Mas, desde a morte de minha mulher, não mais vivi satisfeito. Eu me senti abandonado e sozinho no mato. Dizem que homem e mulher são uma só pessoa. Muitas vezes fazia viagens de recreio para me distrair e esquecer esses pensamentos. Viajei para Santa Cruz, Porto Alegre, Rio Pardo, Cachoeira, Jacuí, Cima da Serra até o Campo dos Bugres, na colônia italiana.

No dia 9 de novembro de 1884, o conselheiro Gaspar Silveira Martins e o Coronel Joaquim Pedro Salgado, em sua campanha eleitoral, estiveram em minha casa e almoçaram comigo.

Em 26 de fevereiro de 1885 viajei para Tramandaí para banhos de mar. Tomei diversos banhos por dia, mas não senti nenhuma melhora no meu estado de saúde, de modo que, passados oito dias, iniciei a viagem de volta para casa.

No ano de 1888 vendi todas minhas terras com exceção de meia colônia e a casa de moradia, porque cheguei a conclusão de que vocês, meus filhos, não podem ocupá-las, pois todos têm profissão e querem exercê-la. Como já tinha tido todos os tipos de prejuízo, queria agora experimentar emprestando dinheiro ao Banco do Brasil a 4% ao ano. Passei a preparar madeira para os tamancos como passatempo. Fazia viagens de recreio visitando um filho e outro.

Nesse ínterim, no ano de 1893, começou a revolução. Como já tinha participado da Guerra dos Farrapos, da minha parte já tinha feito o suficiente. Resolvi então ir para São Martinho, junto ao meu filho Friedrich Wilhelm, para não ser novamente envolvido nessa história. Permaneci bastante tempo. Soube que os federalistas (maragatos) haviam estado em minha casa com meu filho Philipp e lá fizeram o que quiseram.

Em 1899, decidi me aposentar definitivamente. Vendi a última meia colônia e a casa de meu filho Philipp, mas conservei para mim duas peças até minha morte. Não tinha mais bem nenhum a não ser um cavalo e uma égua. Em 12 de fevereiro de 1899, fiz mais uma viagem para Cima da Serra de onde, depois de 8 dias, voltei para casa. Pretendia pernoitar no caminho, mas como o tempo estava bom e o céu estrelado, resolvi descansar um pouco e seguir viagem. Cheguei em casa, feliz, às 10 horas da noite. Tinha cavalgado 15 léguas.