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Autobiografia do jornalista e escritor Hugo Metzler

PÁTRIA E ORIGEM

"O sangue é um caldo especial"
Goethe


Venho de terras alemãs, de uma região onde calhas levam as águas da chuva, ora para o Danúbio e daí para o Mar Negro, ora pelo Reno ao Mar do Norte, onde a terra, durante milhões de anos, adquiriu um aspecto áspero e enrugado, de uma pátria onde, além do suave dialeto, também se escuta, esporadicamente, os mais duros sons alamanos, onde a população nativa vem de uma região que tem todas as características antropológicas da raça alpina, à qual também pertenço.

Eu mesmo sou da Alta Suábia, de uma região entre o Bodensée e o Federsée, onde os antigos se estabeleceram, mais ou menos 3.000 anos antes de Cristo, homens armados com machados de pedra, de origem provavelmente oriental (como provado pelas construções sobre pilares e aquedutos, descobertos em eras mais recentes). Depois, vieram os romanos. Aos poucos, eles impuseram seu domínio em toda Alemanha do Sul. Desde os tempos de Druso (9 a.C.) até o ano 280 d.C., todo o país ao sul, do limite romano que se estendia desde o médio Reno (Coblença), através de toda Alemanha Central, até o Danúbio (Regensburg), ficou sob o tacão romano. Justamente a região pré-alpina, no Bodensée até a Alsácia, pertencia ao assim chamado "país do dízimo", isto é, os que pagavam tributos aos romanos: o dízimo durou vários séculos, durante o domínio romano na minha pátria.

Só após 100 anos de várias lutas, ocorreu a definitiva expulsão dos romanos da Alemanha do Sul, através dos alamanos, no ano 380 d.C., e a região toda entre o Meno e o Reno do Sul e do Bodensée foi reorganizada. Conquistadores e alamanos dividiram o país entre os seus habitantes. Os remanescentes romanos se submeteram e por isto nós, os suavos, somos um povo miscigenado com a raça nórdica "pura" dos germanos, ditos arianos. Diga-se de passagem, puros mesmo, existem pouquíssimos na Alemanha.

Meu pai, pela sua aparência externa, era mais do tipo germânico-nórdico, mas a mãe, de tipo totalmente alpino. Ambos descendem de famílias antiquíssimas de camponeses. Meu pai era temperamental, um pouco raivoso, mas de muita tenacidade e força, além de uma incansável capacidade de trabalho. Camponês de corpo e alma e mandão, a quem todos obedeciam. A mãe era uma mulher bondosíssima, o complemento ideal para o, às vezes, tão ríspido pai, a constante intercessora entre os chegados e o severo mandão.

Deu-lhe 17 filhos, dos quais sou o décimo terceiro, mas sobreviveram 4 que se tomaram adultos: dois filhos e duas filhas. Atualmente só vive mais o meu irmão Max, de Porto União (Brasil, Santa Catarina), e eu.

Eu nasci no dia 1° de abril de 1868 e assim, já de saída, minha mãe me mandou ao U de abril. Dizem que ser o 13° e nascer em 1° de abril só pode dar azar. Ao menos foi o que as comadres vaticinaram. Que treze é número de azar todo inundo sabe, até os esclarecidos berlinenses. Mas que 1° de abril também é dia de azar, isto nem todos sabem, mas todas as sábias comadres da Alta Suábia diziam que era um 'dies atre" um dia desprezível de toda ordem, talvez porque também era o aniversário de Bismark, que naquele tempo era um tanto malquisto (1866). Também por ser o dia de São Miguel Arcanjo, que expulsou os anjos caídos dos céus. Logo, a veia poética popular atribuiu a este dia a crendice de ser um "dies atre ou "nefasti" como os dias de azar na linguagem mais ou menos adaptada à fé cristã.

O nome Hugo recebi no batismo porque casualmente era o nome que estava no calendário neste dia. Metzler (também escrito Mezler) eu me chamo porque todos os meus antecedentes, até onde posso segui-los, se chamam assim. Este nome, porém, nada tem a ver com o sangrento nome Metzger (açougueiro (na tradução)) coisa que eu também acreditava antes, mas sim, tem a ver com o trabalho mais honroso dos moleiros, comerciantes e vendedores de farinha. Já no ano de 1530, em Ravensburg, haviam afixado, na feira, uma ordem contra a carestia.

Meu lugar de nascimento chama-se Ried. Na Alemanha do Norte, Ried é pântano ou charneca-Moor. Sem estes rieds, tanto o planalto da Alto Suávia, como sem as charnecas na Alemanha do Norte, faltaria muito aos encantos paisagísticos da Alemanha. O Ried, onde nasci, é da paróquia de Ebersdorf, no Saalgau pertencente ao Weiler. Minha infância passei no Wannenbergerhof (a propriedade de Wannenberg) para onde foram meus pais dois anos depois que eu nasci. Lá passei uma infância quase celestial, entre prados, campos e matos. Infelizmente por pouco tempo, pois com dez anos fui ao Liceu em Ravensburg, a metrópole Alto-Suávia.

Mamãe, de quem fui o xodó, levou-me para lá a fim de estudar. Comecei lá no dia 1 de outubro de 1878. Antes disso, freqüentava a escola paroquial em Aulendorf. Minha professora foi uma irmã vicentina, da qual me lembrarei até o fim da vida com afeto e gratidão, coisa que não farei com todos os meus professores de alemão e de latim.

Quando o menininho de Wannenberg (como era chamado por ser miúdo e branquinho) partiu para longe, teve como maior preocupação com quem deixar seus coelhinhos; quem iria tratá-los? Papai, mamãe e os irmãos eu queria bem, mas poderia revê-los nas férias de Natal, mas quem cuidaria dos meus coelhos? No mais, achei errado que meus pais quisessem fazer-me um estudado, pois eu me sentia um camponês ligado à terra com todas as fibras. Meu irmão Max, um legítimo escriba, ficou em casa, e ele era funcionário nato que certamente teria feito bem mais sucesso que eu no estudo. Ainda há vinte anos atrás, eu trazia em mim a vontade de ir à colônia com minha família e tomar-me um autêntico camponês. Porém, nunca o consegui e agora, provavelmente é tarde para isto.

FÉ E PÁTRIA

"A religião é a medula das pretensões de um homem"
Herder


Os primeiros sinais de cristianismo foram trazidos à minha pátria pelos romanos. Sobretudo no Bondensée havia muitos romanos que, apesar da expulsão pelos alamanos, se mantiveram no país. Mais tarde, após a batalha de Lulpich (496 d.C.) os francos vencedores assumiram o cristianismo liderado pelo seu rei Clóvis, trazendo a nova fé para o país. Os nobres, donos da terra, impuseram a seus dominados a fé em Jesus Cristo: "Gesta Dei per francos". As obras de Deus acontecem pelos francos, era a palavra histórica da qual os franceses se orgulhavam sem qualquer mérito próprio. Ainda hoje se envaidecem a tal ponto, que alguns anos antes da guerra, numa euforia retórica, um padre dominicano na Notre Dame de Paris arriscou-se à blasfêmia estrondosa de dizer que sem os queridos franceses Nosso Senhor não poderia governar o mundo!

Lá pelo ano 600, os mensageiros da fé, irlandeses, galius e columbanos, pregaram o evangelho no Bodensée. Já antes, em Vindonissa, o atual cantão suíço de Hargan, uma sede diocesana alamana foi transferida para Constança, em 560. Arte e ciência foram cultivados nos mosteiros de St. Geilen, na Suíça. Cem anos mais tarde, foi fundado, por St. Pirnim, o Reichenau no Bodensée. Os monges plantaram brotos nobres no país e no coração dos homens. Agricultura e fruticultura selecionadas foram ativadas e a cultura cristã se espalhou. Após o ano 1000, os conventos Weingarten, Weissenau, Schüssenried, Ochsenhausen, Zwiefalten, Rot - e muitos outros - deram continuidade aos primeiros mensageiros da fé. Augsburg, Constança e Strassburgo, na Idade Média, foram consideradas sedes diocesanas alamanas. As escolas conventuais espalharam cultura e ciência. Por toda parte foram edificadas capelas e fundações paroquiais de onde se espargiam bênçãos e civilização sobre os homens.

Assim foi até os dias da confusão espiritual da reforma que, porém, no Alto-Suávia nunca tomou pé. Só nas cidades livres do reino, os otimatas, isto é, a casta das assim chamadas pessoas "superiores", os patrícios e os pertencentes à rica classe comercial, passaram para as novas idéias, tanto em Ravensburg como em Biberach. O povo do interior e das cidades se mantinha fiel à velha fé, os artesãos e os profissionais livres dos oficios mais rudes continuaram católicos.

Quem vem da Alta Suábia, brota de um chão supercatólico. As pessoas são piedosas e cristãs nos seus costumes, sem pietismos, nem hipocrisia. Como rebento de uma antiga família da Alta Suábia - os antecedentes de meu pai eram agregados do mosteiro de Weingarten e por parte de minha mãe vinham da boa cidade de Saalgan, pertenço, pois, à fé católica por tradição. Minha mãe faleceu com 57 anos no ano de 1888, foi uma mulher profundamente religiosa. Quantas vezes desejei, como ainda desejo, saber rezar com tanta devoção como ela o fazia. Também meu pai, que faleceu idoso, com 80 anos em 1910, era como seu tipo alamano, uma casca dura e áspera que guardava um cerne de cristão convicto e de católico praticante. Transmitia isto a seus circunstantes mais pelo exemplo do que pelas palavras. Como bom chefe de família, fazia as refeições junto aos agregados e empregados, rezando antes e após as refeições, cuidava da ordem e tranqüilidade. Nós, crianças, almoçávamos com a mãe na sala de jantar, onde havia, à nossa vista, um feixe de varas das quais, porém, mamãe poucas vezes fazia uso. As orações da manhã e da noite, bem como a oração antes e depois das refeições nunca eram omitidas. Aprendemos as primeiras rezas no colo da mãe. O dia começava e terminava com água benta e um 'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo'.

Era considerada uma verdadeira calamidade quando uma criança ia para o colégio sem saber rezar o essencial. Nas grandes quintas, como também na nossa casa, todos, filhos, agregados e empregados chamavam os donos de "pai e mãe" como era hábito nestes tempos patriarcais. Vigiava-se a observância dos preceitos pascais. Aquele que trocasse a missa pela taberna certamente não permaneceria no seu emprego.

Todos os anos, pai e mãe iam para Weingarten à procissão em comemoração do St. Sangue, hábito introduzido pelos beneditinos. Às vezes, também acompanhávamos nossa mãe numa peregrinação a Einsiedeln, na Suíça, ou então à Capela das Graças de São Geraldo. E quando mamãe rezava demais, para o nosso gosto, ficávamos impacientes, pois nós, meu irmão Max e eu, queríamos aproveitar os festejos religiosos que coincidiam com a muito apreciada feira popular.

Conto isto para mostrar como se vivia os costumes católicos nos dias da minha infância, pois, assim como meus pais tinham hábitos absolutamente religiosos, assim também era nas outras famílias da minha terra. Logo, porém, iria a uma cidade onde havia pouquíssima religiosidade. Em Ravensburg fui para hospedeiros, agora já falecidos. Eram muito boa gente, mas em matéria de religião aderiram ao Weissersberguismo (Inácio Weissenberg - vigário-geral de Constança, que queria uma igreja independente e esclarecida), de Alto-Baden, que enfraqueceu muito as condutas religiosas. Mais tarde, morei com outro casal, também já falecido. O marido era um simpático tirolês, porém muito leviano e ela era uma ex-viúva alegre que não se deixara abater pelas dificuldades. Bem jovem ainda, escutei muitas coisas incompatíveis com minha idade, tanto assim que minha irmã Elisa disse para minha mulher, quando mais tarde fomos visitá-la: "Berta acredite, se o Hugo não tivesse um anjo da guarda especial ele, junto ao g'llimpeta" Hans, (João Leviano) teria se perdido de corpo e alma. Mas eu tinha um bom fundo religioso e este resistiu também aos costumes frouxos sob ponto de vista religioso e social.

Para continuar este tema, seja dito que, naquela época, só se ia à primeira comunhão aos 13 anos, o que também aconteceu comigo. Foi na Igreja St. Jodokrem Ravensburg que, com mais 36 companheiros, nos aproximamos dos bancos da comunhão, preparados pelo bom capelão, que foi o contrário do professor de religião irritadiço e raivoso, sempre armado de uma longa vara para nos impingir, à força, a história bíblica. Quanto à palmatória, que naquela época se usava principalmente nas classes iniciais e médias, havia muito a contar. Pode ser que dê minha opinião sobre o fato, numa outra ocasião. Hoje apenas quero mostrar como foi que o menino se tornou um homem, com convicções firmes.

Nunca fui muito fantasioso, mas, à medida que minha cabeça amadurecia, pensava muito sobre as questões religiosas e me preocupava, principalmente, com as controvérsias existentes, mesmo dentro do ginásio que eu freqüentava. Nunca fui de discutir em coisas de religião, nem o sou hoje e sempre me dei bem com colegas de confissão evangélica, o que fez que, como rapaz, me decidisse, através das comparações, entre o protestantismo e o catolicismo, pelo total, pela verdade inteira que eu só encontrei no catolicismo. Meias verdades nunca aceitei e quando percebi que, na Igreja Católica, se juntava pedra com pedra para um total harmonioso e que, com a fé na divindade de Cristo e no ministério da Eucaristia, toda a fé se afirma ou cai, me tomei firme na fé.

Agradeço isso sobretudo ao professor Basler, que nos administrava aulas de religião em Rottweil. Ele havia sido expulso pelos prussianos durante as "lutas culturais" encabeçadas por Bismark, que oprimiram os católicos alemães. Mais tarde, quis lançar sua culpa pelos excessos de dureza nas lutas religiosas sobre o seu ministro de cultura: Falk.

O professor Basler foi admitido em Würtenberg e era um professor tão convincente que me forneceu as bases para a compreensão de todo tesouro da fé católica e fez com que me decidisse por ela. Cristianismo sectário ou igrejas reformadas que esvaziam a doutrina de seu conteúdo mais precioso não me serviam. Ou eu assumia a fé com suas doutrinas, ou largaria tudo.

Tudo ou nada, meio termo não existe em questões de fé. Isto foi lá pelos anos 1881-1888, quando tinha 20 anos. Desde então nunca mais tive dificuldades com problemas de fé, mesmo diante das questões que tive que enfrentar criticamente, tanto intra como extramuros.

Pelo contrário, com a autocultura dos fatos históricos e das questões teológicas só pude aumentar minha fé. E mesmo que a obra de Cristo, muitas vezes, fosse usada de maneira muito humana, às vezes demasiadamente humana, ela nunca me deixou confuso. Sei diferenciar verdade de fraquezas humanas. Que haveria muitas interpretações errôneas, já o próprio Cristo previu. Mesmo um pecador, como eu, sabe que os fracos filhos de Adão e Eva, tanto os vestidos de trapos com os adornados de púrpura, tanto os burgueses com os operários e camponeses, apresentam pouca ou nenhuma santidade: homens são homens. Minha convicção católica jamais me deixou cego no próprio terreiro, e a prudência, mais a caridade cristã, me obrigaram a jamais julgar ou condenar a Igreja por causa da fraqueza de alguns que, tanto em "membries et capite" (membros e cabeça) acontecem e já aconteceram.

Mesmo que, às vezes, seja difícil perdoar e esquecer, quero sempre me lembrar o que disse um bom padre católico - dizem que isto já foi dito por um santo: "pense bem, amigo católico, que maior prova da verdade divina e da segurança da promessa de Cristo que a Igreja duraria até o fim dos séculos e que as portas do inferno não prevaleceriam sobre ela, é que, justamente os homens que a governaram temporariamente, não conseguiram destruí-la".

CIDADANIA E ESTADO

"Não é Estado aquele que pertence a um homem só"
Sófocles


Fui imunizado, desde o berço, com a vacina democrática. Os leitores do Deutsches Volksblatt o sabem e assim não conto novidade. Acho até que todos que possuem sangue alamano libertador o são, por índole (como diz o brasileiro, democratas, graças às suas tendências naturais). Também não é por acaso que os pensamentos democráticos sempre marcaram os territórios sul e sudoeste alemães, pois lá, inicialmente, haviam se estabelecido os alamanos, na Suíça, Alsácia, Baden, Würtenberg e parte suava da Bavária. A democracia sul-alemã é de um tipo especial. Nada tem a ver com aquela democracia barulhenta, nem tem nada em comum com a democracia judaica ou social-marxista. A democracia sul-alemã, sob certos aspectos, é quase conservadora, mesmo que, às vezes, como em 1848, se tornou selvagem quando acompanharam com alegria o sangrento canto revolucionário de Hecker (antiprussiano). Por isso o escritor suavo popular Heinrich Hausjakob (+ 1916) arriscou a sentença de que em cada democrata há um pouco de aristocrata. 'enquanto ele se sente capacitado de co-administrar as questões políticas do seu governo e não acha eficaz que este esteja tanto para o bem como para o mal diante do povo, através de uma só cabeça, coroada ou não'.

Sentimentos monarquistas e amor à casa reinante nunca tiveram muita aceitação na minha terra. Também oriundo de quê? Vamos a ver: após um breve governo do ducado suavo, depois da queda dos Welfos, na Alemanha do Sul, veio o triste fim da glória imperial dos Staufen. No relativamente pequeno território entre o Danúbio e Bodensée, houve ao longo dos tempos, no mínimo três dúzias de dominantes: conventos, cidades, condados e pequena nobreza local. A velha Áustria também tinha muitos direitos a impostos e territórios, os quais arrendava aos mosteiros, cidades e domínios. Em conseqüência disto, no assim chamado "Reichs haupt deputationsschluss' (fim da deputação geral do reino), os condes alemães bajulavam de maneira muito servil os lacaios dos ascendentes corsos, para conquistar as graças de Bonaparte e um pedaço de terra, principalmente dos bens eclesiásticos confiscados. A Alta Suábia foi junto para o novo reinado de Würtenberg, batido por Napoleão.

Os würtenburgueses luteranos dominavam na Alto-Suávia de maneira nada agradável. As preciosas obras de arte e as insubstituíveis bibliotecas dos mosteiros foram secularizadas e levadas a Stuttgart, vendidas aos mercadores e daí dispersadas. Diga-se de passagem, os católicos de Wittelsberg não procederam melhor que os protestantes de Würtenberg, na Bavária, em sua posse recém- adquirida. Quem vai se admirar quando, 100 anos depois, os próprios príncipes perderam suas coroas? A história universal é o julgamento universal. O primeiro rei de Würtenberg, Frederico, o Gordo, um comilão como poucos, era um dos mais fiéis adeptos de Napoleão. Seus subalternos tiveram que prestar serviço de guerra para França e, em 1812, tiveram que participar da grande marcha universal contra a Rússia, com mais de 12 mil homens, para perder a vida dentro da neve e do gelo.

E, quando a estrela de Napoleão começou a declinar, o recém-empossado rei de Würtenberg foi um dos últimos a se incorporar aos movimentos de libertação, e isto só depois que lhe foi assegurada sua coroinha pelos russos, prussianos e austríacos, mais as vantagens prometidas por Napoleão. Daí em diante, o monarca de Würtenberg veraneava no sul de seu país. Lá, ele se ocupava em transformar a antiquíssima cidade de Buckhora num Friedrischshaven e instalou no lindíssimo mosteiro beneditino sua residência de verão. Nas escolas de Würtenberg que freqüentei, felizmente, não fizeram a mínima questão de impregnar o sentimento nacionalista e admiração pela casa reinante. Também não se pode relatar muita coisa boa sobre os duques da velha Würtenberg com suas "maitresses", o empobrecimento do povo e a escravização popular. Por isso, preferiu-se ignorar as virtudes da realeza, que apenas nos deveriam ter provocado entusiasmo, através dos versos de L. Uhland que exaltavam o conde Eberhard (velho choramingão barbudo) e o realmente bom Conde im Barte, amado fundador da Universidade de Tübingen. Também, como "pirralhos bem pequenos" cantávamos na festa da vara "o hino nacional de Würtenberg". Pois é, os últimos reis de Würtenberg também eram boas pessoas. Figuras singelas e decorativas, que se podia querer bem sem ferir princípios democráticos.

O camponês da Alto-Suávia nunca se empolgou pelos seus dominantes, fossem eles seculares ou eclesiásticos, e hoje, ainda desconfia de todos eles devido a seu passado histórico! O camponês, durante séculos, foi explorado por estes senhores e sofreu muito. Mal tinha tempo de tratar de seus próprios interesses. Dois a quatro dias por semana trabalhava de arado para o seu senhorio. Cavalheiros (senhores feudais) mosteiros, condes e príncipes exigiam seu trabalho e seus impostos. Ele prestava trabalho servil de caça, pesca, além de serviço militar. Seu próprio campo era apenas arrendado e ele ainda tinha que pagar dízimo. O capataz real percorria os campos e contava os feixes de grãos; a décima parte ia para o galpão dos dízimos. Todo chão trabalhado pelo arado fornecia o "grande dízimo"; a alfafa, o centeio, a cenoura, o feijão e as frutas, o pequeno dízimo. Pelo vinho, havia o dízimo calculado pelo 'mestre juramentado' que o passava para os barris do senhor feudal.

Porcos, ovelhas, gado, cavalos, galinhas, patos e gansos forneciam o "dízimo de sangue. Alem disto, no carnaval, o camponês entregava um porco gordo e em St. Martim, um bom ganso. Igualmente, de cada galpão de defumação, uma galinha silvícola pela colheita de gravetos e galhos na floresta senhorial, e o aluguel do campo pelo pasto do gado. Estava resolvido que o rendeiro, para arrumar seus implementos, podia buscar madeira na floresta. O dono de um cachorro, muito necessário para enxotar os animais selvagens que invadiam sua terra e estragavam as plantações, pagava um imposto especial. Quando juízes, jurados, funcionários e o alcaide vinham a serviço ou apenas para caçar, o camponês tinha que doar a alfafa para os cavalos e uma boa refeição à base de galinha e caça para os visitantes. Em troca do velho costume germânico 'jus primae noctos" (direito à noite de núpcias) foi costume na minha terra pagar uma vaca, "a vaca nupcial" que tinha que ser a melhor. Além disso, em caso de morte daria a melhor vestimenta da pessoa que morreu. Assim, havia impostos e chicanas para cima dos camponeses que não tinham fim.

Muitas outras coisas poderiam ser contadas para contradizer tantos escritores, principalmente aqueles que enalteceram "os bons velhos tempos", para descrever os judiados e massacrados camponeses. Diz um velho provérbio "sob um bastão forte é bom viver. Pode ser que vassalos e subalternos dos senhorios eclesiásticos estivessem em melhores condições que os dominados pela burguesia secular. Bom demais também não era, porque os senhores eclesiásticos geralmente faziam parte da nobreza e também eram grã-senhores, bispos da caça, bem nascidos e digníssimos prelados, que nem se davam conta de que um camponês era um homem oprimido.

Qual seria então o motivo dos levantes camponeses justamente contra os mosteiros da Alto-Suávia, onde enfrentavam seus senhores eclesiásticos e opressores? Estes camponeses eram instigados, em parte, por oradores luteranos que se aproveitavam das mensagens de Lutero de "liberdade para o cristão, mas pouco ou nada conseguiam. Pelo contrário, na Sexta-feira da Paixão de 1525, estas hordas foram enxotadas pelo grão-capitão Georg Truchsess de Waldburg, chamado 'Bauernjërg', para os seus respectivos domínios, onde haveriam de continuar a servir e carregar pesos ainda maiores que até então.

Desta rápida apresentação do desenvolvimento histórico da Alta Suábia, que se situa tão próximo de sua irmã tribal, a livre Suíça, o leitor pode deduzir por que a minha terra respira ares tão democráticos e por que eu, desde o berço, como filho de camponês, cresci nesta pátria ardente de liberdade e que minha orientação política não poderia ter sido diferente do que a de um homem do povo entusiasmado pela democracia e libertação popular.

Acima de minha disposição democrática está o meu grande amor pelo povo alemão como um todo. A história e a literatura alemã foram minhas matérias prediletas durante todo tempo do ginásio. Nos cursos superiores, no colégio, a literatura incentivava muito a admiração pelo gigantismo e cavalheirismo da Idade Média, os tempos altaneiros dos reis saxões, de Salier e Hohenstanfen, quando na Alemanha havia um só povo e uma só fé e estimulavam a idéia pan-germânica nascida nas guerras de libertação, mas logo sepultada por causa da grande rivalidade entre Prússia e Áustria.

Os livros mais enjoados e unilaterais eram da História prusso-alemã que se julgava dona de toda sabedoria em questões alemãs e que tentaram também impingi-la a nós, em Würtenberg. Felizmente bebi meus conceitos de 'grande Alemanha' em outras fontes. Meus professores de História, alguns protestantes, outros católicos, me estimularam, através de suas grandes divergências de enfoque, a um pensamento autônomo.

Toda história da reforma foi passada aos alunos de maneira muito respeitosa, por um professor de alemão, através do fornecimento de fontes para auto-avaliação. Mas, no ano seguinte, um professor de história protestante falou da luta de investidura de Henrique IV e dos imperadores de Hohenstaufen e, nesta ocasião, soube ripar bastante no papado ávido de poder. Na Revolução Francesa, naturalmente, só se flagelou os excessos, mas dos benefícios posteriores pouco se falou. Do despertar das nações e das lutas de libertação contra Napoleão pouco se falava, pois o tempo era esgotado com história greco-romana. Assim, não foi necessário julgar o vergonhoso proceder e a falta de palavra dos príncipes alemães após as guerras de libertação, quando se cobrou dos alemães o estado constitucional em troca de sacrifícios e amolações durante as guerras. Desta forma, os senhores professores não precisavam opinar a respeito do estado policial no período de Mettenich, nada louvável, nem falando do ano louco de 1848' da juventude sempre ávida de liberdade. Nem tampouco que, em 1849, o rei dos prussianos, "Frederico Guilherme IV', só assinou a constituinte prussiana porque (como Bismark relatou furiosamente em suas memórias e lembranças) se encontrava atrapalhado num local secreto. Nós, jovens, também não deveríamos ouvir nada da verdade sobre os levantes sangrentos entre Berlim e Viena e do resto da Alemanha até que os governantes se dignassem a conceder as liberdades mínimas de uma república parlamentar.

O ano de 1866, com toda política de força de Bismark, considero um triste capítulo de desarticulação alemã por não ser, felizmente, adorador da história prussiana. A Itália foi unida, mas a Alemanha, dividida. Na 1 Guerra Mundial, os franceses nos agradeceram por isto. Em 1870/71 todos conheciam a política de Bismark: - A Prússia, à frente do mundo! O que não se conciliava com as idéias pan-germânicas e assim não pacificou pelos seus objetivos. As conseqüências surgiram em 1914-18 (1 Guerra Mundial).

As dinastias, orgulho dos príncipes, impediram a unificação de todos os troncos germânicos desde séculos. Os que encabeçaram estas lutas submergiram ingloriamente no cenário político de 191 8. Agora, a Alemanha é uma república. Eu não ajudei a forjá-la, mas já que foi legalmente instituída em Weimar e foi confirmada pela constituinte na sua forma legal, para mim, velho democrata, não foi difícil aceitá-la, principalmente por nela figurar o pan-germanismo dos movimentos de libertação de 1848. As cores preto-vermelho-ouro foram pedidas pelos melhores do parlamento de Frankfurt, pela unidade do povo alemão. E há ainda alguns anti-históricos que acham que estas cores nada lhes dizem. Debocham de si mesmo e não sabem porquê!

O destino me levou ao estrangeiro, para este grande, lindo e futuroso país que é o Brasil. Eu sei o que devo a este país e o que lhe devo em fidelidade. Sei, porém, também distinguir entre ser fiel a um povo!

Cada um continua, através de suas obras pela sua descendência. Por isso, desde o princípio, considerei ser minha obrigação contribuir para o progresso deste país, que já é minha segunda pátria. Há 37 anos que é a pátria única dos meus filhos e por isso tenho o cuidado de contribuir com tudo que posso e que está nas minhas forças.

Mas também sempre me preocupei que minha casa fosse fiel à comunidade cultural alemã e que, no foco sagrado de meu lar, fossem cultivadas a língua e a cultura alemãs, para que continuem sendo uma herança da tradição alemã.

Meus filhos, em número de sete, são brasileiros natos, educados para serem bons brasileiros e amar o seu país como a nenhum outro no mundo. Mas também foram educados para que sempre se orgulhem de sua origem alemã, da pátria de seus ascendentes, desta Alemanha, às vezes tão difamada, mas que pode dar a todos, através de sua língua, o acesso a muitos bens culturais que possui como nenhum outro país do mundo.

O menino sonha, o rapaz tenta, o homem forma sua vida. A princípio pesa e experimenta, depois põe mãos à obra e forma assim o que deseja, através do trabalho tenaz e objetivo. Mais ou menos isto eu li de um escritor moderno. Não é assim e não será assim com todo homem? Comigo não foi assim também? - Sim e não. Como menino, sonhei muita coisa, como rapaz, segui a minha trilha pessoal, mas como homem, raras vezes as coisas falharam. Talvez porque não me propusesse um objetivo muito claro à vista, um plano de vida pronto, quando, há 37 anos, pobre de bolso, mas não de coração enfermo, vim da Alemanha para o Brasil. Não, não por isto, antes, talvez, porque não tivesse plano nenhum, não construí castelos no ar e sim resolvi enfrentar a dura realidade com firmeza. Só uma coisa eu me propus: que no estrangeiro sempre procederia honradamente para me fazer um cidadão útil na sociedade local.

Não esperava nada do futuro, e quando desembarquei em Porto Alegre com uma libra inglesa e mais cinco a seis mil réis no bolso me dirigi ao "Kaiserwald", em São Leopoldo, como alegre "cosedor de sabão", para depois - quatro meses mais tarde, retornar a Porto Alegre. Tomei-me gerente, ou melhor, "Zé faz tudo', do Deutsches Volksblatt. Enfrentei muitas tarefas, desde expedidor a guarda-livro, revisor e, mais tarde, editor e redator, dono e emissor do jornal. Isto não aconteceu de uma só vez, de acordo com um plano preestabelecido e sim ao longo de dezenas de anos, principalmente porque me mantive firme nos bons e maus tempos. Por muitos anos realizei, por "magro" salário, tarefas árduas no serviço em que me engajei. Com isso, consegui levar o Volksblatt que, nos anos 90 era tido, entre os queridos colegas, como um intruso, por ter vindo, há pouco tempo, de São Leopoldo para um lugar mais destacado.

Não faça planos e não falharás. Isto ainda me digo hoje, quando pretendo alguma coisa. Este foi o meu segredo e, por isto, superei dificuldades e contratempos de todo o tipo sem sofrer abalos e desilusões. Cheguei lá onde estou por persistência e tenacidade, sem me meter na cabeça o que teria que alcançar.

"Se quiseres ser a forja de tua própria sorte, trata de manter o fogo aceso". Não vou repetir e contar nestas linhas como e porque vim para o Brasil e cheguei ao Deutsches Volksblatt. Sobre isto já escrevi em 1916, por ocasião do meu jubileu de 25 anos de trabalho: publiquei então minhas recordações e vivências. Aqui e agora, quero apenas traçar, em poucas linhas, algumas reminiscências de como, aos poucos, me tornei jornalista e quais os "cavacos do ofício" me atingiram.

Já na juventude, era assíduo leitor de jornais. No Wannenberger Hof, durante o verão, se assinava só um jornalzinho de Waldsee, mas poucos o liam. Na primavera, verão e outono, o camponês passa por tempos difíceis. Nas longas noites de inverno, meu pai assinava mais outro jornal de anúncios da Alta Suábia e, às vezes, o Mensageiro da Floresta Negra. Eu preferia este, como criança, porque seu cabeçalho apresentava lindos pinheiros e casas típicas da região, além de um mensageiro que caminhava com uma grande sacola, um cachimbo na boca e era seguido pelo seu cachorro, o que, para uma criança, era muito atraente.

Da minha primeira experiência de ler jornal, também me recordo: deve ter sido no inverno de 1876, quando peguei, sem noções de bê-a-ba, o jornalzinho local e tentei decifrar um anúncio com bastante dificuldade. Apelei para minha mãe - ora, leia o que vem depois da primeira letra e depois pense alguma coisa; consegui ler 'aver' e quando mamãe ajudou me lembrando o velho diarista da casa, consegui decifrar a palavra Xaver (Xavier) e a letra tão difícil: era o X. Uma insignificância a recordação que me ocorreu ao escrever estas linhas, mas comprova que minha mãe, com a pouca escolaridade que tinha - as crianças só freqüentavam a aula nos meses de inverno, porque, no verão, ajudavam no campo a cuidar do gado, a desenterrar batatas, etc. Mas como filho de professores tinha o dom nato de ensinar como o têm muitos professores na colônia, que com escolaridade de três, quatro anos, às vezes, ensinam melhor que muitos pedagogos acadêmicos e conseguem fazê-lo com pimpolhos de sete, oito anos.

Mais tarde, até exagerei na leitura de livros e jornais. Como ginasiano, em Ravensberg, eu era tão aferrado ao mensageiro, onde lia o romance e esperava pelas continuações, que muitas vezes, por causa disto, me atrasava para a missa, o que me acarretava castigos. Muitas vezes, quando conseguia um livro especial, acontecia gazear a aula por um, dois dias e minha hospedeira escrevia então uma desculpa esfarrapada dizendo: 'Desculpa senhor professor, pois o Hugo estava com muita dor de cabeça.

Agora, já não consigo ler muito mais que um romance e assim mesmo, só se este é muito recomendado. Seguidamente, quando tenho dores de cabeça violentas e tenho que fazer as correções e revisões do jornal sem poder parar, penso - "Veja, isto é castigo por ter gazeado aula e alegado dor de cabeça."

A primeira impressora (pequena e manual) que vi, foi em 1887, em Rottweil, com o editor Banhoizer. Este editava, bem ou mal, naquela época, um pequeno jornal, sem muita cooperação externa. Várias vezes ajudei-lhe a virar a manivela: seu jornal sairia à míngua, enquanto o jornal de Rothschild prosperava. Este era auxiliado materialmente pelo rico fabricante de pólvora Duttenhofer, que apenas exigia que não se escrevesse nada sobre as esporádicas explosões em seus depósitos, coisa que acontecia volta e meia, levando preciosas vidas humanas. Quando, um dia, no verão de 1888, eu vi num necrotério sete operários sendo velados, todos ensanguentados, busquei a notícia do fato no jornal de Rottweil, nada achei. Logo pensei comigo: sempre direi a verdade, jamais a omitirei. E Deus é testemunha que, por vantagem nenhuma, aceitei propostas desonrosas, como, muitas vezes, recebi na qualidade de editor do jornal, nunca aceitei pagamento pelo silêncio! Gente boba sempre houve, como aquela que publicou, no fim da guerra, quando o Volksblatt deu a conhecer o colapso da Alemanha, a causa perdida, a fuga do Kaiser, a proclamação da República da Alemanha, e fizeram correr as calúnias via colônia que o Hugo Metzler se vendeu aos ingleses e não sei mais quantas asneiras.

A primeira vez que escrevi para um jornal foi antes de partir de Bremerhaven para o Brasil, em 24 de janeiro de 1891. Mandei uma notícia para a Folha de Ravensburg, onde chamei a atenção de todos os interessados em emigrar, para a Sociedade de 5. Rafael nos portos de emigração. Mais tarde, fiquei sabendo que alguns agentes de viagem em Ravensburg ficaram furiosos por eu ter lhes estragado parte de seu negócio. Foi, então que percebi que escrever um jornal acarreta muita responsabilidade. E muito fácil pisar nos calos de alguém sem ter esta intenção e que se criam inimigos e adversários com muita facilidade.

Meu segundo "debut' jornalístico foi em 12 de outubro de 1892, já em Porto Alegre. Festejavam-se os 400 anos de descobrimento da América, em toda América Latina e também no Brasil. Os teutos de Porto Alegre comemoraram este fato com uma série de festejos populares na Sociedade Caixeiros-Viajantes. O ponto alto destas festividades foi um concurso para jovens, de quem mais comia salsichas. Os jovens estavam muito entusiasmados. Mas esta comilança para o descobrimento da América fez aparecer cenas nojentas. Critiquei isto em uma nota que o senhor Clemente Vallau, o então dirigente do jornal, publicou. O editor da Neue Deutsche Zeitung, Theodor Reinecke mordeu a isca e replicou, formando assim uma polêmica com réplicas e tréplicas.

Um ano mais tarde, já era então editor responsável e tive uma querela jornalística com Wilhelm Ter Brüggen. Tratava-se da construção do 'Hospital Alemão" (hoje Moinhos de Vento) e do "Deutscher Hilfsverein" - assunto em que, por amor à paz, não vou mais tocar. Eu me saí bem porque defendi uma causa justa. Também como dirigente da "Tipografia do Centro' esbarrei em várias dificuldades por ser um alemão e o gerente achou que seu poder ficou limitado com a chegada do novo agente. Mas após dois meses, consegui segurar as rédeas, não com prepotência, mas tratando com firmeza o meu setor e sobretudo trabalhando mais que outros.

A "Tipografia do Centro' já naquela época (1891) não era mais uma empresa pequena. Pertencia a uma sociedade de acionistas que editavam três jornais de centro - A Epoca, o Deutsches Volksblatt e o Corriere Cattólico. A Epoca desde o princípio foi o "ai Jesus" da empresa. Tinha muitos redatores e colaboradores não-remunerados, - trabalhavam pela boa causa, logo, à exceção de um repórter pago não tinha funcionários. O jornal saía duas vezes por semana. O editorial era escrito pelo doutor Alfredo Clemente Pinto e na semana seguinte pelo doutor Lacerda de Almeida. Ambos são excelentes pessoas e até hoje bons amigos. Mas na redação de A Epoca ficou provado que mesmo um jornal pequeno não pode ser tratado como causa secundária, mas exige força e dedicação total com o pagamento correspondente. A Epoca então, como só vinha dando prejuízo aos acionistas, foi fechado em 1894, um pouco antes do grande empastelamento que o teria destruído de qualquer maneira. Este "empastelamento" se deu em dia claro, num domingo, por um grupo de italianos calientes, atiçados por Germano Hasslocher contra a "Tipografia do Centro" no período em que governava este Estado Julio de Castilhos e o senhor Borges de Medeiros era chefe de polícia. O Corriere Cattólico foi destruído pelos próprios italianos, enquanto o Deustsches Volksblatt foi mais resistente e depois desta destruição começou a prosperar com intensidade.

Mas já me adiantei demais. Em setembro de 1893, faleceu o senhor Wallau, homem estimado, tanto na colônia alemã como entre os contemporâneos luso-brasileiros. Como eu o havia substituído durante sua doença, de muitas semanas, e como demonstrei capacidade, a diretoria me nomeou redator oficial. Este fato honroso me acarretou um processo de imprensa, além da hospedagem atrás das grades, pois naquele tempo o Rio Grande do Sul ardia em paixões e lutas partidárias um tanto selvagens. Três anos durou a grande revolução de 1891 até 1894. Certo dia, Porto Alegre (24 de junho de 1892), após a rebelião das frotas no Rio de Janeiro, foi bombardeada pelo canhoneiro Marajó" transformando a cidade num campo de batalha por muitos anos.

Nada mais fácil nestes tempos de paixões políticas do que ser atacado por motivos políticos. Havia no partido do "Centro" três deputados estaduais. Os jornais do partido "Centro" deveriam, pois, acompanhar a politicagem republicana e o que me ia "contre cocur" de maneiras que, vez por outra, eu me excedia devido às minhas disposições mais democráticas, fazendo críticas valentes.

A princípio tudo ia relativamente bem, mesmo até o fim das revoluções. Mas no dia em que foi levantado o Estado de Sítio fui alcançado pelo "Messias" quando o chefe de polícia e grão-mestre Ribas, enviado pelos maçons, mandou me prender como "pecador de imprensa" e me pôs na cadeia em câmara escura. Na verdade, os "irmãos dos três pontinhos" (maçons), tinham a intenção de me prender num sábado para averiguação - e assim me manter até a segunda-feira, pois no domingo não haveria expediente. Meus amigos Luiz Englert e o coronel. Frederico Link conseguiram, porém, me livrar no mesmo dia.

Depois da revolução, os jornais puderam escrever, mais ou menos, tudo que quisessem, porque a lei da censura, como a temos há alguns anos, não existia na época da república livre do Brasil. A liberdade de imprensa em muitos jornais se transformou em libertinagem quase malcriada. Para a velha folha, a Deutsche Zeitung (falecida em 1917), para muitos a Deutsche Tante (tia alemã), mas era fato consumado que o Deutsches Volksblatt não era jornal alemão e sim apenas um folheto dos jesuítas editado em língua alemã.

A Deutsche Zeitung de Koseritz e o Pioneiro batiam nesta tecla e a instigação mais intensa foi feita pela Deutsche Post sob o não tão intenso Wilhelm Rotermund. Às vezes, eu tinha que debater com os quatro colegas, acrescidos, às vezes de um quinto, o Homerulos de Santa Cruz. Mas, lutar, honra! A Tipografia do Centro, em 1895, foi vítima da violência da população e, como depois se descobriu, sob integração dos adeptos da luta cultural de origem maçônica. O já citado Germano Hasslocher caluniava e destratava, na sua Gazeta da Tarde, com a citação nominal de alguns padres da maneira mais infame, os jesuítas. Eu respondia com veemência, chamando-o de desertor político, o que o incomodou bastante. Ele mandou um intermediário - "ohm meninissejuvabit" - que me desafiou a um "túnel"- não quero chamar tal farsa de duelo. Eu, delicadamente, despachei este senhor para fora da tipografia, com pouca deferência pelos seus mandantes.

Talvez poucos se recordem desta história, hoje hilariante, mas que, naqueles dias, acarretou conseqüências sérias. Ainda na mesma noite, dois capangas a serviço de Hasslocher me aguardavam na Rua da Praia para me surrar. O ataque falhou, mas, pouco tempo depois, aproveitando como motivo um artigo que eu escrevera (sobre a tomada de Portapia pelos piemonteses), ele atiçou os italianos contra a tipografia, que foi empastelada em dia claro, estragando tudo quanto foi possível. Foi num domingo, no dia 29 de setembro de 1895. Mas toda a colônia alemã, composta por católicos, ficou enfurecida pelo vandalismo praticado. "Empastelaram o nosso Volksblatt". As extrações do jornal aumentaram. Esta foi a resposta do povo. A sociedade de ações se desenvolveu em conseqüência dos prejuízos sofridos, mas a empresa do "Volksblatt" foi reorganizada e o número de assinantes passou de 1.600 para 2.400. Este foi o recibo que a população da colônia tentou passar ao governo pelo empastelamento.

O governo já pensou que o Deutsches Volksblatt tivesse sido 'varrido' da terra como qualquer folhinha, conforme receita bem conhecida. Até então, só debatera com opositores declarados inimigos da igreja católica. No ano seguinte, em 1896, começaram as divergências com pessoas do mesmo partido, quando alguns proeminentes para as eleições nacionais não aceitaram os candidatos do partido do "Centro", Clemente Alfredo Pinto e Matias Steffens. Eleitos por consenso, passaram a apoiar a chapa republicana e arranjando assim uma bela confusão nas fileiras do partido. Eu não assinei nem desculpei os que traíram o partido. Parti para agressão aberta, vencendo esta luta partidária. Mas o nosso partido saiu dos eixos com prejuízo à causa católica.

Depois desta experiência tão negativa, a única grande decepção que tive na minha vida, fiquei como um "puro-sangue" que, uma vez machucado, nunca mais corre com a mesma empolgação.

Será que perdi a minha disposição para a luta depois destes embates, como os trazem a profissão de jornalista? Pelo contrário, a coragem e a impetuosidade eu conservo até hoje. Apenas me tornei mais prudente. Também acho melhor deixar o tempo passar para não tocar em feridas ainda abertas. Por isto, pretendo relatar todas as experiências do período da guerra e dos 30 anos de vida jornalística. O material já está arquivado. "Estou aqui para amar e não para odiar".

PALAVRAS FINAIS


Em espírito de conciliação quero entrar na velhice. Mesmo que os anos de luta tenham freado os ímpetos, fui detido nas agressões mais temperamentais, não tanto pela falta de coragem, nem pelo medo das conseqüências, mas pela moderação que me aconselhava minha boa esposa, já falecida, e que, tanto nos bons dias como nos maus, se mantinha firme a meu lado: com sua delicadeza me acalmava, detendo-me nos impulsos impostos pelas tempestades e perigos que nos ameaçavam e que, no momento quase não imaginaria.

À sua memória dedico hoje, no meu aniversário de 60 anos, meu especial tributo de gratidão, mesmo para além-túmulo. Sua morte deixou uma lacuna que nunca mais poderá ser preenchida. Também minha saudade há algum tempo está declinando. Está chegando o tempo de recuar e deixares planos de futuro para forças mais jovens.

Que eu parta, cedo ou tarde, depende de Deus. Mas quando, um dia, tiver que enfrentar o meu julgamento e não puder ser o meu advogado, então peço que não façam muita cerimônia, mas digam de mim: "Ele foi um lutador, um homem".

A todos que fielmente me apoiaram nesta luta, gostaria de dizer o que me escreveu, no álbum de recordações, um colega de escola:

Se um dia te derem a notícia
que aos pais me reuni;
Então pensa e diz: eu o conheci;
Faça uma cruz e dedica-me uma saudade.